Questões como a construção da identidade a partir da literatura literárias e outras questões serão abordadas em encontros na Baixada e em Niterói

Cerca de 1.500 malês ou “negros de ganho”, como eram conhecidos os negros islâmicos que exerciam atividades livres no Brasil em meados do século XIX, insurgiram-se contra a discriminação e pela libertação dos escravos em janeiro de 1835, na cidade de Salvador, província da Bahia. Quatro anos depois e há quase dois mil quilômetros dali, em 1839, Manoel do Congo, escravo pouco conhecido, liderou uma também revolta pela libertação dos negros em Paty do Alferes.

Essas duas histórias, uma relatada à exaustão nos livros de História e outra ainda pouco conhecida, vão se encontrar na III edição do Festival Literário Internacional da Diáspora Africana (FLIDAM) de São João de Meriti, que acontece, entre os dias 17 e 21 de novembro, na Praça da Matriz, no seminário Pós-Abolição em perspectiva: novos estudos sobre experiências negras na liberdade e em outros eventos espalhados pela cidade em celebração ao Dia da Consciência Negra.

A trajetória do negro no Brasil e o contínuo processo de reconhecimento e construção de identidade dos descendentes africanos são alguns dos temas debates, exposições e mostra de cinema da programação do FLIDAM. A Superintendente da Leitura e do Conhecimento da Secretaria de Estado de Cultura (SLC / SEC), Vera Schroeder, vai participar do Seminário por uma Baixada mais leitora: o direito ao livro, leitura e bibliotecas para todos, dia 18, às 9h, na Praça da Matriz. A conversa faz parte do painel “Trilhas – políticas públicas”, que irá discutir, dentro vários temas, como a produção literária, aliada às práticas de leitura, pode contribuir para  a formação de novos traços e servir como norte para solucionar os conflitos da vivência cotidiana dos descendentes de africanos no país.

“Tanto o resgate desta memória que conta nossa história é importante – e o Dicionário Banto do Brasil, escrito por Nei Lopes, é um belo exemplo disso – assim como a linguagem literária escrita por novos autores é fundamental no reconhecimento e na valorização da identidade de negros e negras no Brasil”, explica Vera Schroeder.

O sambista, compositor e escritor Nei Lopes, de 73 anos, aliás, é o convidado especial do “Seminário Pós Abolição em perspectiva: novos estudos sobre experiências negras na liberdade”, que acontece de 1º a 3 de dezembro, no Museu do Ingá, um espaço da SEC. O autor recentemente lançou o romance “Rio Negro, 50”, onde revisita a efervescência e a luta do movimento negro na cidade, em 1950, contada a partir de negros e mulatos, numa mistura de ficção e dados  históricos.  Lopes irá participar da conferência de encerramento do seminário, às 18h, no auditório da Universidade Federal Fluminense (UFF), no Bloco O, 3º andar.

Além do escritor, pesquisadores comparecerão a discussões acerca das desigualdades  no mercado de trabalho, do processo de resgate e inserção da memória dos negros e do período da escravidão no ensino de História no país. Estas discussões, afirma Vera Schroeder, dão à cultura  possibilidades de construção de novas narrativas, a partir de uma nova compreensão de símbolos da trajetória do negro:

“A existência humana e coletiva é formadora e, ao mesmo tempo, produto de sua cultura, fortemente marcada pela sua dimensão simbólica. Em solo brasileiro estes símbolos foram sendo transformados, criando muitos hibridismos extremamente interessantes. E se a palavra cria mundos, podemos dizer que a literatura pode modelar novas existências, pode sim criar espaços de convivência mais justos e afetivos”, disse Vera Schoreder.

Fonte: Secretearia Estadual de Cultura