Humberto Amorim, pesquisador bolsista do PNAP-R busca criar os subsídios necessários para mapear as práticas, os discursos e os universos simbólicos que envolvem a chegada e a difusão do violão no Brasil, lançando luz sobre os diversos aspectos relacionados à inserção do instrumento na sociedade brasileira do século XIX.

O projeto intitulado O Violão no Brasil: das Estórias às Histórias deve mostrar de que maneira o instrumento se inseria em dinâmicas socioculturais diversas na sociedade oitocentista, aparecendo tanto nas mãos de um escravo fugitivo quanto em anúncios de vendas de partituras em lojas especializadas. Um dos objetivos fundamentais da pesquisa é agregar mais referências em torno de um tema que ficou associado ao discurso que confere somente às ruas (e seus personagens) a certidão de batismo do instrumento no Brasil.

O livro resultante da investigação também irá resgatar, categorizar e analisar a incidência de termos como viola, violão e guitarra nos periódicos brasileiros entre as décadas de 1800 a 1830: “com o auxílio do pesquisador Pedro Kilson, estamos esmiuçando centenas de documentos, transcrições e citações inéditas que trazem novas luzes sobre a presença do violão na dinâmica cultural brasileira do século XIX, bem como identificando as atividades dos seus primeiros executantes, professores, comerciantes, concertistas, diletantes, entre outros”, afirma o professor.

O intuito é oferecer, tanto ao público leigo quanto ao especialista, respostas para questões que continuam intrigando o percurso do violão no País: em que circunstâncias o instrumento chegou ao Brasil? Que papel ocupou na sociedade de então? Qual foi seu alcance e penetração nos diferentes estratos sociais? O que permitiu o surgimento de seus primeiros praticantes? Que tipo de repertório, técnicas e materiais empregava? Como os dados coletados nos periódicos se relacionam com a cultura literária do período e com os relatos de viajantes, cronistas e historiadores do século XIX? E, finalmente, há relações entre as práticas do violão atual com aquelas iniciadas nas primeiras décadas do século XIX?

“É como encarar uma aventura por sobre uma floresta densa, de poucas trilhas e muitos caminhos inóspitos, mas que, por isso mesmo, torna-se fascinante a cada nova pegada encontrada, a cada fração desconhecida da história que se descortina diante de nós”, finaliza o pesquisador.

Humberto Amorim é pesquisador residente da Biblioteca Nacional e professor da Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Doutor em musicologia, mestre em práticas interpretativas, possui ainda três graduações na área musical, além de ter obtido o Máster em violão clássico pela Universidade de Alicante (ESP). Publicou dois livros pela Academia Brasileira de Música: Ricardo Tacuchian e o Violão (2014) e Heitor Villa-Lobos e o Violão (2009), este último considerado pela crítica “a maior pesquisa já realizada sobre o assunto no Brasil” (Revista Violão Pro, 2009), “um estudo minucioso” (Revista Concerto, 2010) e “leitura obrigatória para quem quiser entender a obra do compositor para o instrumento” (Jornal da AV-Rio, 2010).

Fonte: Biblioteca Nacional